Essência perdida

Quando comecei o blog, o primeiro comentário publicado falava da extinção das mulheres, em referência ao título. Explico melhor aqui um dos aspectos do problema: a sociedade masculina tenta eliminar as mulheres de sua vista à medida que envelhecem. Não necessitamos de exemplos, mas vamos a eles. Quantas mulheres de 50, 60 ou mais idade apresentam telejornais no Brasil? O fato de termos eleito uma presidente mudou este preconceito? Aposto que não.

Aparecerá alguém a dizer que também não há muitos homens desta idade, porque a tevê é exigente com a fisionomia. Errado. É exigente com a fisionomia feminina, porque a mulher, ao envelhecer, comete quase um crime social. Boris Casoy, de 72 anos, segue dando opiniões no Jornal da Band. William Waak, de 61, na Globo. Até William Boner, de 50 anos, segue em atividade, mas teve sua companheira de telejornal substituída. Por um modelo mais novo. Não sei porquê a dupla mudou, mas não tenho lembrança de ver no principal telejornal do país nenhuma senhora de 60 e poucos anos. Preconceito muito bem disfarçado, daqueles que quase nem notamos.

Não assisto novelas, mas digo sem medo de errar que não há nenhuma protagonista de 65 anos. Não falo de vilãs. Para isto as mulheres sempre serviram nas novelas. Me refiro à protagonista principal, quando a história gira a seu redor. Em comparação, quantos galãs de telenovela têm 60 anos? As mulheres são menos exigentes, mais conformadas ou simplesmente aceitam que as pessoas são belas em todas fases de suas vidas, ao contrário dos homens?

É possível encontrar exemplos de mulheres acima dos 40 anos em posições de destaque na tevê. Quase todas em programas de auditório ou entretenimento em que o público é predominantemente…feminino. As mulheres nunca foram tão marginalizadas por cumprir uma função biológica elementar: envelhecer. Passam a estar em dívida com a sociedade, a serem párias, excluídas, leprosas.

Os homens aceitam suas mães e esposas, não são assim tão perversos, mas 115% dos que não têm compromisso afetivo com outra mulher estão à procura de uma ninfeta, independente da idade que eles tenham. Se não tiverem dinheiro, poder, atributos físicos ou intelectuais para consegui-lo, vão em busca de uma mulher…de 30. Logo a seguir, nas revistas “do coração”, homens e mulheres defenderão que amor não respeita a idade. Isso se ELES têm 20 anos a mais que elas. Jamais ao contrário. E os casos de celebridades que desafiaram esta lógica confirmam a regra, pois não duraram. E enquanto duraram sofreram preconceito inclusive das outras mulheres.

As mulheres perderam na sociedade brasileira – e suspeito que em todo o mundo Ocidental, mas não tenho tantos parâmetros assim – o direito a envelhecer e ser vistas com dignidade. São consideradas ultrapassadas, como um videogame quando é lançado um novo modelo. A lógica do obsoletismo industrial programado é aplicada à risca às mulheres. São eliminadas do campo de visão, não servem mais para a sociedade, pois carecem de seu principal propósito: enfeitar o ambiente. Não acontece o mesmo com os homens. Os homens são vistos como experientes, sábios, e a sociedade que ouvir suas opiniões.

Tudo isso parece ridículo contado assim. Até que saímos às ruas e enxergamos o que acontece na vida real. E vemos o quanto o preconceito é subliminar, está tão disfarçado que até tem argumentos para justificá-lo sem que pareça a vergonha que é, um preconceito brutal. O pior deles é: as cirurgias e tratamentos estão aí para isso. Se você não quer ser um robô e passar pela recauchutagem anual ou bianual, você mulher que me lê, está ultrapassada. Será descartada por um novo modelo de videogame. Nem as mulheres, especialmente as mais jovens, percebem a tirânica lógica em que estão presas. Os preconceitos camuflados não terminam aí. Mas este comentário, sim.

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O lado sombrio do ser humano

Pesquisa divulgada nos Estados Unidos mostra alguns dados inquietantes. Feita de maneira anônima com 435 participantes, 9% dos homens e 2% das mulheres admitiram que poderiam ter relações sexuais com crianças. Leia aqui matéria em um site de notícias científicas, que contém link para a pesquisa, em inglês.

Bullying na garrafa

Homens e mulheres, meninos e meninas se beneficiam de uma sociedade violenta no Brasil, não em partes iguais. Não falo da violência óbvia de assaltos ou balas perdidas. Me refiro àquela psicológica, interior, que atinge meninas com uma crueldade que desconheço em outros lugares. Basta andar de ônibus, trem, metrô ou caminhar nos centros das grandes cidades para testemunhar dezenas de exemplos de desrespeito de homens de todas as idades com crianças e adolescentes encaradas como um vulgar objeto sexual.

Não é apenas o que lhes dizem ao ouvido, o que já seria grave. É o que fazem. O desrespeito violento com que encaram as meninas pela rua (entre outras coisas) me envergonha como ser humano. Sim, porque isto é violência. E elas, por uma resposta padrão e falta de referência de uma sociedade mais educada, às vezes se ofendem e às vezes – prefiro pensar que uma minoria – estranhamente se sentem idolatradas. Todos gostamos de ter poder, mesmo que irreal ou temporário, e essa parte perversa é a que supostamente beneficia uma mulher. No fundo, vivemos um jogo subliminar de poder. Além disso, sempre há alguém capaz de ganhar dinheiro com essa relação distorcida, inclusive as mulheres.

Assisti – e acredito que parte minoritária do país compartilha minha opinião – estarrecida há alguns anos uma “dança da garrafa” em que crianças (meninas) dançavam alegremente em óbvia alusão a uma cena sexual sobre garrafa. O país, em sua maioria, não se importou que a tevê repetisse estas cenas à exaustão, como continua sem se importar que dezenas de programas exibam mulheres com pouquíssima roupa que dançam sem parar para “entreter” o público. Houve reações e críticas, mas nada de vulto, tanto que isso durou muito tempo.

A exploração sexual feminina não é privilégio da tevê brasileira. Mas, de novo, desconheço país que a tenha levado tão longe. E pior: sem que ninguém se importe em discuti-la, denunciá-la, criticá-la. Tenho certeza que meu comentário será considerado moralista e puritano por muitos que passarem por aqui. Mas já fui adolescente e vitima do desrespeito, da humilhação na rua, no ônibus.

Como acabar com esse alimento à violência? Mudando a sociedade. O problema é que o Brasil não quer mudar. A máquina de dinheiro que alimenta Big Brothers e suas cópias também reforça o culto ao corpo, o investimento em ginástica, dietas, revistas especializadas, cirurgias, esteticistas, fabricantes de cosméticos, agências de publicidade, uma indústria, enfim, muito bem instalada que nem sonha com uma vida mais humana ou digna para todos, pois isso ameaçaria seus negócios. Não é só negócio, claro.

Esta é a parte mais clara do contexto, mas a porção submersa do problema é que as mulheres não querem mudar a sociedade. Quando quiseram, mudaram – mesmo que as conquistas hoje pareçam perdidas na guerra cotidiana. Continuam educando seus filhos homens de maneira diferente das filhas mulheres, reproduzindo preconceitos. Querem seguir competindo pela beleza, juventude, acessórios etc etc (a lista é interminável e não excludente) com outras mulheres, porque foram ensinadas por séculos a viver em guerra entre si por um objetivo principal, o homem. Tudo isso é uma generalização e vai contrariar centenas, milhares de homens e mulheres que não compactuam com essa lógica. Mas falo da maioria.

Podemos discutir o que começou primeiro, mas não podemos negar a lógica da competição intrínseca presente desde o começo da vida para uma mulher. Fomos ensinadas a agradar (aos olhos e aos ouvidos dos homens), enfeitar o ambiente, ser simpáticas, afáveis. Parece absurdo que isso ainda seja assim, 200 anos depois do início do feminismo, mas as mulheres se sentem em débito se eventualmente não seguem o roteiro. E as que comumente não seguem este roteiro são vítimas de um dos piores preconceitos que conheço, estimulado igualmente por homens e mulheres: são “mal amadas”. Ninguém relaciona a falta de sexo de um homem ao seu mau humor, embora todo ser vivo, seja um panda ou um ser humano mereça e dependa do amor de outro para sobreviver.

Todos os pontos estão interligados. É por isso que a violência diária do bullying eletrônico não surpreende e vamos continuar a ver casos como os do Rio Grande do Sul e Piauí em que adolescentes se suicidaram após terem imagens íntimas compartilhadas na internet. A violência não começou na internet, mas é ampliada por ela. Nenhum meio eletrônico respeita a adolescência no Brasil. Nem o rádio, onde os anúncios são frequentemente de mau gosto e/ou criminosos com as mulheres. Um país que não respeita suas meninas na rua não as respeitará em nehum outro local.

Invasores de corpos

O mundo ocidental não é, em geral, ostensivamente machista. Obviamente não é feminista. É injusto com as mulheres, uma espécie encurralada e ameaçada de extinção – no sentido figurado, claro. Em comparação com o século XXI, o movimento feminista tinha um trabalho mais fácil em seus primeiros dias. As mulheres e homens que defenderam direitos iguais de voto ou propriedade privada tinham um objetivo palpável para lutar. Era algo concreto, sem subterfúgios: ou as mulheres votavam e portanto haviam conquistado a igualdade política ou não votavam e permaneciam discriminadas.

A causa agora é invisível, difusa, subliminar e, portanto, muito mais poderosa. Minha teoria é que nunca antes na história universal – aproveitando a frase adaptada de um ex-presidente brasileiro – as mulheres estiveram em tamanha desvantagem. Pode parecer um contrasenso e até uma injustiça com tantos homens e mulheres que durante 200 anos de história do feminismo conseguiram avanços fundamentais, mas espero tornar clara minha teoria aqui no blog.

Não pretendo repetir o blá,blá,blá da mulher submetida a dupla jornada de trabalho nas grandes cidades brasileiras e latino-americanas, escravizada por padrões estéticos irreais, horrorizada porque tem rugas, celulite e cabelos brancos. Enfim, porque é um ser vivo, que respira, muda a cada mês e envelhece como todas as espécies. Tudo isso é muito conhecido. Vai aparecer aqui e ali, pois é parte do mundo que vejo, mas forma a espuma, não o corpo. Me interessa discutir como preconceitos subliminares e estilos arbitrários ditados pela sociedade estão destruindo as mulheres em sua essência, de onde tirei o título do blog.

Nunca me interessou a discussão de gênero no sentido tradicional do termo, pois não via que as diferenças entre homens e mulheres fossem determinadas por fatores exógenos, ou seja, pelo meio ambiente. Acreditava que as mulheres já haviam conquistado um tal ponto de liberdade social capaz de tornar irrelevantes ou secundárias as diferenças de gênero ditadas pela sociedade. Agora vejo que estava enganada. As mulheres de 20 anos têm a falsa sensação de ter alcançado um padrão de autonomia (moral, religiosa, estética, afetiva, relacional etc) real, até que a vida lhes ensina gradativamente que era tudo ficção e as armadilhas do meio ambiente crescem a seu redor.

Enquanto escrevia me veio à cabeça o filme de ficção científica Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers), o original de 1956 e a versão de 1978 (Invasores de corpos), com o bom trabalho do ator Donald Sutherland. Nele, alienígenas invadiam o corpo de humanos sem encontrar resistência e os transformavam em uma cópia de si próprios, mas sem emoções, com a consequente morte do original humano. Qualquer semelhança é de livre associação do leitor.